
Hoje acordei assim… sedenta de palavras que teimam em querer escapar-me… Porque tem a escrita que ser tão inconstante quanto a vida? Será porque teimamos em fazer-nos reflectir em cada letra e tecer cada frase ao sabor daquilo que sentimos no momento? Talvez… porque a escrita também é uma forma de libertação… porque quando escrevo de certa forma incorporo a personagem principal dando-lhe uma forma e dimensões que vão muito além da textura do papel em que verto a tinta negra com que crio as palavras… E dou-me a mim própria a oportunidade de me tornar bem melhor do que aquilo que me vejo… Traço, com um pouco de imaginação e algum desvelo, os contornos do que poderia ser caso não insistisse em ser tão igual a mim mesma… E dou-me a oportunidade de sonhar... e de dançar com graciosidade apesar da falta de jeito… e de escrever belas histórias com ou sem inspiração… e a de ousar ter um pouco mais de frontalidade e um pouco mais de coragem… E, uma vez findos esses devaneios… esses passeios furtivos por realidades feitas de papel… olho o meu trabalho com esperança de que seja um daqueles de que poderei orgulhar-me a cada vez que o leia… Porque alguns ensaios são especiais mas não consigo alcançá-los todos os dias… E talvez seja melhor assim… Ou não saberia dar valor às diferenças e às conquistas a que por vezes me entrego… E naquelas raras ocasiões em que me encontro aprendo a dar também a mim própria um pouco mais de valor… porque por vezes também nos escondemos no silêncio das nossas indefinições e as palavras ousam querer arrancar-nos impressões e segredos que insistíamos em ocultar de nós mesmos… porque temos medo de ter esperança… e medo de chocar os outros… porque temos medo de admitir que algo tem poder sobre nós… e que pode magoar-nos ao mudar-nos a vida… porque arriscar requer coragem… e as palavras… essas parecem-nos inofensivas… delineadas em finas folhas de papel… tão frágeis na sua existência fugaz… tão fáceis de suprimir depois… E tornam-se mais do que amigas ou confidentes… mais do que fugas… mais do que escudos de medo… tornam-se um espelho em que já não temos medo de ver-nos reflectidos porque bem lá no fundo, embora possam ser nossas… também são de todos os outros… e de ninguém…
